Já faz um tempinho que não publico no blog, mas hoje pra acabar com o hiato, tem post novo, um texto da amiga querida Naira Dau. A Nairinha é uma amiga muito amada lá de BH [ê saudade!], companheira de gostos por livros e músicas e ainda compartilhamos da mesma paixão: ler e escrever. Então, vamos lá! :)
A gente ama é por dentro, nos apaixonamos pelo que é, e que nos permite
sermos nós mesmos, que nos constrói, mas essa época pós-moderna (ou também
chamada de hipermoderna) busca envolver os seres humanos apenas pelo contato
exterior, pela busca do prazer do corpo. E isso se torna lamentável quando se
insere em nossas igrejas e o ensino do exterior se torna mais evidente que a
construção do homem interior, que ensina as mulheres a serem “princesas cristãs para
conquistar o príncipe ‘ungido de Deus’” e que para isso é preciso moldar-se pelas
etiquetas de comportamento. Eu posso estar completamente errada em minha
opinião, sei que muito do que penso agora precisa ser cuidadosamente lapidado
pelo ensino da Palavra, mas sempre detestei aqueles livros de “O que um rapaz espera
de uma moça”, “10 coisas que toda moça que quer casar precisa saber”, “Como
atrair o homem de Deus”, sempre fui da opinião que é preciso gostar por dentro, gostar do que sou e se eu não for o que um rapaz espera então prefiro continuar
convivendo comigo, afinal vou morrer comigo e é bom que eu goste da
convivência antes de tudo. Sou da opinião que não existe padrão de mulher certa, mas sim mulheres sendo forjadas em seu caráter à luz da Palavra, aprendendo a
ser submissas em amor e dotadas de dons interiores. É tão opressor ser quem não
somos e tão bom estar feliz com a gente. E tudo o que eu penso concorda com uma
frase de John Piper “Se queremos ver o casamento assumir o lugar que ele deve
ter no mundo e na igreja, ou seja, se queremos que o casamento glorifique a
verdade, o valor, a beleza e a grandeza de Deus, devemos ensinar e pregar menos
sobre o casamento e mais sobre Deus”.
E mais, me causa enorme espanto ainda ouvir coisas do tipo “à mulher não
é dada a razão”, quanto mais ser proferido de uma jovem cristã nos dias
de hoje. Mas, graças a Deus não precisarei gastar tantas palavras para refutar
tal ideia, já que desde o século XVI, mulheres como Olympia Morata
desmascararam tais absurdos, mulher de tão grande virtude e inteligência, que
foi capaz de ser uma grande colaboradora da Reforma e de se sentar à mesa em
grandes debates com homens como Lutero e Calvino, e proclamar o evangelho a
tantos. Se alguém, por acaso, pensa que minhas palavras se revelam contra a
submissão, não entenderam nada do que quero dizer, e como chegaram a tal
ligação entre a mulher que pensa com a insubmissa eu não sei, penso ser um
grande problema de estudo e interpretação da Palavra, mas também não espere que
lhes diga que para esse ensino indicarei palestras sobre “princesas cristãs”,
recorro-me às mulheres da bíblia e lhes mostro a beleza da mulher a serviço de
sua família, ou mesmo, ainda, ao grande século XVI, a Idelette D’Bures, esposa de
Calvino, que com grande esplendor, discrição e completa dedicação ao lar, possibilitou Calvino ser o que foi em sua grande obra, ou Katharina Von Bora,
esposa de Lutero, que teve a honra de ouvir de seu marido que não seria nada do
que foi sem ela.
Sobre isso, um grande teólogo norte-americano de nossa época, N.T.
Wright, em uma entrevista dada ao site americano sobre seu novo livro, que não
trata especificamente sobre isso, disse, ao ser questionado sobre alguns
cristãos modernos criticando Paulo como “machista” ou mesmo “anti-mulheres”: “Esta
visão é deprimente e superficial. Paulo, como os outros cristãos e como o
próprio Jesus, viveu em um mundo complexo, onde, apesar do que alguns pensam,
muitas mulheres eram capazes de viver vidas independentes, com empresas
geridas, viagens, e assim por diante, enquanto que muitos outros fizeram parte
das estruturas tradicionais que ainda reduziram suas opções. Um mundo
muito parecido com o nosso, de fato! Em que, a mensagem principal era que
Paulo diz em (Gálatas 3.28): "no Messias, Jesus, não há judeu nem grego,
escravo nem livre, nem "homem e mulher". Podemos ver isso
funcionando quando ele se refere à Júnias como uma "apóstola", e no
mesmo capítulo (Romanos 16)
mencionar várias outras mulheres que estão em posições de liderança na igreja e
onde, também, ele dá a Febe a tarefa de levar a carta a Roma, que quase certamente
significava que ela iria lê-la para fora e explicar para as casas-igrejas.”
Achei esta resposta tão revolucionária que preciso muito estudar sobre isso,
mas cabe aqui sua visão sobre o que tento dizer.
Então, sinceramente, não me venha com palavras de que para a mulher a
racionalização não pode ser grande nem a maior virtude, que se contrapõe aos seus
“deveres”, então eu digo que prefiro continuar pensante, com toda capacidade
dada por Deus (incrível pensar que Deus deu esse dom a nós mulheres não é, se
deveríamos agir somente a base de sentimentalismo) do que ser tão vazia para
dizer tais palavras.
AS MULHERES
OCAS
Rio de Janeiro , 1962
Headpiece filled with siraw
T.S. Eliot, "The Hollow Men"
Nós somos as inorgânicas
Frias estátuas de talco
Com hálito de champagne
E pernas de salto alto
Nossa pele fluorescente
É doce e refrigerada
E em nossa conversa ausente
Tudo não quer dizer nada.
Nós somos as longilíneas
Lentas madonas de boate
Iluminamos as pistas
Com nossos rostos de opala.
Vamos em câmara lenta
Sem sorrir demasiado
E olhamos como sem ver
Com nossos olhos cromados.
Nós somos as sonolentas
Monjas do tédio inconsútil
Em nosso escuro convento
A ordem manda ser fútil
Fomos alunas bilíngües
De "Sacre-Coeur" e "Sion"
Mas adorar, só adoramos
A imagem do deus Mamon.
Nós somos as grã-funestas
Filhas do Ouro com a Miséria
O gênio nos enfastia
E a estupidez nos diverte.
Amamos a vida fria
E tudo o que nos espelha
Na asséptica companhia
Dos nossos machos-de-abelha.
Nós somos as bailarinas
Pressagas do cataclismo
Dançando a dança da moda
Na corda bamba do abismo.
Mas nada nos incomoda
De vez que há sempre quem paga
O luxo de entrar na roda
Em Arpels ou Balenciaga.
Nós somos as grã-funestas
As onézimas letais*
Dormimos a nossa sesta
Em ataúdes de cristal
E só tiramos do rosto
Nossa máscara de cal
Para o drinque do sol posto
Com o cronista social.
T.S. Eliot, "The Hollow Men"
Nós somos as inorgânicas
Frias estátuas de talco
Com hálito de champagne
E pernas de salto alto
Nossa pele fluorescente
É doce e refrigerada
E em nossa conversa ausente
Tudo não quer dizer nada.
Nós somos as longilíneas
Lentas madonas de boate
Iluminamos as pistas
Com nossos rostos de opala.
Vamos em câmara lenta
Sem sorrir demasiado
E olhamos como sem ver
Com nossos olhos cromados.
Nós somos as sonolentas
Monjas do tédio inconsútil
Em nosso escuro convento
A ordem manda ser fútil
Fomos alunas bilíngües
De "Sacre-Coeur" e "Sion"
Mas adorar, só adoramos
A imagem do deus Mamon.
Nós somos as grã-funestas
Filhas do Ouro com a Miséria
O gênio nos enfastia
E a estupidez nos diverte.
Amamos a vida fria
E tudo o que nos espelha
Na asséptica companhia
Dos nossos machos-de-abelha.
Nós somos as bailarinas
Pressagas do cataclismo
Dançando a dança da moda
Na corda bamba do abismo.
Mas nada nos incomoda
De vez que há sempre quem paga
O luxo de entrar na roda
Em Arpels ou Balenciaga.
Nós somos as grã-funestas
As onézimas letais*
Dormimos a nossa sesta
Em ataúdes de cristal
E só tiramos do rosto
Nossa máscara de cal
Para o drinque do sol posto
Com o cronista social.
Vinicius de Moraes.
Considerações:
É minha percepção, estou aprendendo, estudando e clamando para ser
guiada pelo Espírito Santo nos estudos de Sua Palavra.
Ufa, ainda existem bons ensinamento hoje!
Livros que li sobre o assunto:
Preparando-se para o casamento – John Piper; Quando pecadores dizem sim – Dave
Harvey.
De onde tirei o que falei sobre as mulheres do século XVI? – Grandes
Mulheres da Reforma – Jame L. Good.
Entrevista de N.T. Wright: http://jonathanmerritt.religionnews.com/2013/11/06/nt-wright-john-piper-paul-debate-tome/#sthash.YLif3bxb.dpuf
Naira Dau.
Naira Dau.
Uau que honra!! Obrigada Cá pela oportunidade, quem diria que escreveria para o meu blog preferido heiin? Hahahaha Da certo essa parceria sim viu, tô achando!
ResponderExcluirÓtimo texto Mrs. Dau! Ideias muito bem colocadas e uma reflexão precisa, que muitas mulheres, sobretudo cristãs (ofuscadas por determinadas doutrinas ou padrões de comportamento traçados por uma interpretação limitada da Palavra), têm deixado passar desapercebidas. Admiro muito seu modo de pensar. Forte abraço! Thiago Helton.
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